Pe. Jan Pelczarski, OSJ
O Pe. Jan Pelczarski, OSJ, é de origem polonesa e atua como Superior-Geral da Congregação dos Oblatos de São José. Fez sua primeira profissão religiosa em 1985 e os votos perpétuos em 1989. Foi ordenado sacerdote em 1991.
É licenciado em Teologia Moral pela Pontifícia Universidade Lateranense de Roma. Além disso, possui doutorado em Teologia Espiritual pelo Teresianum e mestrado em Bioética pelo Ateneu Regina Apostolorum.
Introdução
O tema que nos acompanha nesta conferência nasce do próprio coração do carisma de São José Marello e de sua intuição espiritual fundamental: os Oblatos de São José são chamados a viver na escola de São José, assumindo como missão própria o cuidado dos interesses de Jesus.
A pergunta que norteará nossa reflexão é esta: o que significa hoje cuidar dos interesses de Jesus? Como podemos viver essa incumbência recebida do Fundador na primeira metade do século XXI, em um contexto histórico profundamente transformado e marcado por novos desafios culturais, sociais, eclesiais e espirituais? E, sobretudo, como podemos ser fiéis ao carisma sem nos limitarmos a repetir as formas do passado, mas deixando que o Espírito Santo suscite novas expressões apostólicas?
Fidelidade e criatividade não são duas realidades contrapostas. Uma fidelidade sem criatividade corre o risco de transformar-se em simples conservação; uma criatividade sem fidelidade corre o risco, por sua vez, de perder a própria identidade. A verdadeira fidelidade ao carisma é uma fidelidade criativa: ela preserva a fonte original do dom recebido e, ao mesmo tempo, sabe responder às novas necessidades dos homens e mulheres do nosso tempo.
Nossa reflexão se desenvolverá em três momentos.
Na primeira parte, buscaremos aprofundar brevemente o significado teológico e pastoral da expressão "cuidar dos interesses de Jesus", destacando o seu fundamento bíblico e espiritual. Partiremos da figura de São José, tal como ela emerge dos Evangelhos, para compreender como ele viveu a sua própria missão em total disponibilidade ao projeto de Deus e no cuidado cotidiano da pessoa e da missão de Jesus.
Na segunda parte, apresentaremos três exemplos concretos de criatividade pastoral, nascidos da espiritualidade marelliana em diversas partes do mundo, fazendo também referência à realidade mexicana. Eles mostram como o nosso carisma continua gerando respostas novas às exigências do tempo presente. A criatividade não nasce da busca pela novidade em si mesma, mas da capacidade de ler os sinais dos tempos à luz do Evangelho e de traduzir o dom recebido em novas formas de serviço.
Por fim, na terceira parte, gostaríamos de abordar alguns desafios que hoje dizem respeito àqueles que, seguindo o carisma de São José Marello, se dedicam a cuidar dos interesses de Jesus. São desafios que tocam o modo de viver a própria vocação, buscando permanecer unidos a Cristo e deixar-se guiar pelo seu Espírito.
1. São José: o primeiro guardião dos interesses de Jesus
A expressão "cuidar dos interesses de Jesus" constitui uma das intuições mais profundas da espiritualidade de São José Marello e representa uma chave interpretativa fundamental do carisma dos Oblatos de São José. Ela não nasce simplesmente de uma sensibilidade espiritual particular, mas tem suas raízes no próprio coração do Evangelho e no testemunho bíblico daqueles que fizeram de sua vida um serviço ao projeto de Deus.
O ponto de partida encontra-se nas palavras de São Paulo na Carta aos Filipenses: "Todos buscam os seus próprios interesses, não os de Jesus Cristo" (Fl 2, 21). O Apóstolo, ao falar da missão de Timóteo, destaca uma diferença essencial entre dois modos de viver: de um lado, uma vida centrada em si mesmo, nos próprios desejos e nas próprias vantagens; de outro, uma vida aberta a Cristo e à sua missão. Timóteo é apresentado como aquele que aprendeu a assumir os mesmos sentimentos do Senhor: cuidar dos outros, colocar o bem da comunidade em primeiro lugar e dedicar a própria existência ao Evangelho.
Os interesses de Jesus coincidem com o que está no coração do Filho e compreendem, em última análise, a participação na sua preocupação fundamental: a salvação da humanidade e o cumprimento da vontade do Pai.
Dentro da perspectiva bíblica, São José aparece como o modelo mais luminoso de quem cuida dos interesses de Jesus. Os Evangelhos não registram palavras suas, mas apresentam uma vida totalmente orientada para a realização do projeto de Deus. José é o homem que acolhe uma missão que não escolheu, entra em um mistério maior do que os seus próprios projetos e coloca a sua existência a serviço da história da salvação.
Nos mistérios da infância de Jesus, assim como em sua vida oculta em Nazaré, São José continua cuidando dos interesses de Jesus. Por meio do trabalho cotidiano, da vida familiar, da educação e da transmissão da fé, ele contribui para criar as condições para que o Filho possa crescer "em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens" (Lc 2, 52). Seu serviço é oculto, mas essencial. José não anuncia publicamente o Evangelho nem realiza grandes obras visíveis; no entanto, prepara silenciosamente a missão de Cristo por meio da fidelidade às responsabilidades cotidianas que Deus lhe confiou.
É precisamente esse aspecto que impactou profundamente São José Marello. Ele reconhece em José de Nazaré o modelo do apóstolo chamado a viver não para si mesmo, mas para os interesses de Jesus. Assim como São José dedicou cada pensamento, cada trabalho e cada energia ao cuidado do Redentor, também o discípulo é chamado a orientar toda a sua vida para o serviço de Cristo.
Nessa perspectiva, cuidar dos interesses de Jesus não significa apenas fazer algo por Ele, mas viver para Ele. Significa deixar-se envolver em sua missão, assumir as suas preocupações como próprias e colocar à disposição de Deus a própria vida, as próprias capacidades e o próprio tempo.
2. Cuidar dos interesses de Jesus hoje: fidelidade ao carisma e criatividade na missão
A pergunta fundamental que interpela o carisma mareliano na Igreja é esta: como continuar hoje cuidando dos interesses de Jesus, permanecendo fiéis ao dom recebido e, ao mesmo tempo, respondendo com criatividade aos desafios do presente? A resposta não pode ser buscada nem na simples repetição das formas do passado, nem na busca de novidades passageiras. Ela nasce de um discernimento espiritual capaz de preservar a fonte original do carisma e, ao mesmo tempo, de deixar-se guiar pelo Espírito Santo rumo a novos caminhos.
São José representa o modelo desse equilíbrio. Ele permanece totalmente fiel à missão que Deus lhe confiou: custodiar Jesus e Maria. No entanto, essa fidelidade não se expressa por meio de esquemas já definidos. José precisa enfrentar situações imprevistas, tomar decisões novas e encontrar soluções concretas. Sua fidelidade é criativa porque nasce de um amor profundo pelas pessoas confiadas aos seus cuidados. Ele não possui uma resposta pronta para cada situação, mas possui o essencial: um coração totalmente disponível para amar e servir a Jesus.
O mesmo dinamismo pertence ao carisma mareliano. São José Marello não nos deixou simplesmente obras a conservar, mas uma atitude espiritual a vivenciar: ser homens totalmente orientados para Cristo, prontos para reconhecer hoje onde Ele deseja ser servido. O carisma define as prioridades apostólicas do Instituto, que devem ser realizadas com paixão e disponibilidade para consagrar a própria vida, a fim de que o Senhor seja conhecido, amado e seguido.
Por isso, a fidelidade ao carisma requer um retorno contínuo às origens. É necessário redescobrir o coração da intuição do Fundador: a espiritualidade de São José, a centralidade de Cristo, a comunhão eclesial, o serviço humilde e oculto, a atenção educativa e pastoral, sobretudo para com as jovens gerações. Esses elementos constituem a fonte permanente à qual se deve recorrer para enfrentar os desafios do presente.
Ao mesmo tempo, a fidelidade exige criatividade. Um carisma não é um patrimônio estático guardado em um museu, mas um dom vivo confiado à responsabilidade das novas gerações. Assim como uma semente que permanece fiel à sua própria natureza, mas produz frutos novos conforme o terreno em que é plantada, também o carisma marelliano é chamado a encarnar-se nas diversas culturas e nas novas situações eclesiais e sociais.
A fidelidade ao carisma, portanto, não consiste apenas em conservar o que recebemos, mas também em saber discernir, hoje, onde os interesses de Jesus nos pedem para estar presentes e que forma concreta nosso serviço deve assumir. Nessa perspectiva, gostaria de deter-me brevemente em alguns desafios particularmente significativos para a nossa missão. Pois é assim que o carisma de São José Marello continua vivo: não simplesmente repetindo o que foi feito, mas preservando o mesmo coração espiritual e buscando, com criatividade e discernimento, o que Jesus nos pede hoje para fazer por Ele e por seus irmãos.
3. Respostas criativas aos novos desafios
Passemos agora a apresentar três exemplos concretos de resposta criativa diante das novas circunstâncias do nosso tempo. São experiências diversas entre si, mas unidas pelo desejo de compreender as necessidades das pessoas e de encontrar, à luz do Evangelho e do carisma de São José Marello, respostas concretas.
Estes exemplos nos mostram como a caridade pastoral não é algo estático, mas sabe renovar-se e encontrar novas formas de estar próxima das pessoas, sobretudo onde emergem novas pobrezas e novas necessidades.
3.1. O Centro de Espiritualidade: uma resposta à sede de Deus do homem contemporâneo
Entre os grandes desafios da Igreja no século XXI está o de responder à crescente sede de espiritualidade que o coração do homem contemporâneo experimenta. Vivemos em um tempo marcado por profundas mudanças sociais, e a chegada da inteligência artificial, juntamente com os cenários futuros que ela deixa entrever, permite prever transformações ulteriores e radicais em diversos âmbitos da vida. A luta contra a pobreza, a promoção da paz, a defesa dos direitos humanos e o cuidado da criação constituem dimensões irrenunciáveis da missão cristã.
No entanto, juntamente com essas urgências, surge com força outra necessidade, muitas vezes menos visível, mas não menos decisiva: a necessidade de saciar a sede espiritual. O homem de hoje dispõe de meios extraordinários para se comunicar e melhorar as condições materiais da existência, mas, ao mesmo tempo, continua a questionar-se sobre o sentido da vida, o valor do sofrimento, o amor e a morte; e nenhum progresso científico ou tecnológico pode substituir a busca pelo Absoluto.
O carisma marelliano é chamado a responder a esse desejo fundamental do homem. Como nos recorda o Evangelho: «Nem só de pão vive o homem» (Mt 4, 4); o coração necessita da Palavra de Deus, da oração, dos sacramentos e de um caminho espiritual que ajude a ler a própria vida — como se dizia antigamente — sub specie aeternitatis.
Nessa perspectiva, os Centros de espiritualidade adquirem uma importância cada vez maior. Eles representam uma das expressões mais criativas da pastoral, pois oferecem às pessoas espaços de silêncio, de escuta, de formação e de acompanhamento espiritual. Em um mundo dominado pela hiperconexão e pelo ruído, esses lugares tornam-se autênticos oásis onde é possível redescobrir a presença de Deus e reencontrar a unidade da própria existência.
Fiéis ao carisma de São José Marello, compreendemos que evangelizar hoje significa também criar lugares nos quais a espiritualidade josefina possa ser conhecida, estudada, celebrada e vivida. São José — homem do silêncio, da fé laboriosa e da vida oculta — continua a falar com surpreendente atualidade ao homem contemporâneo, muitas vezes desorientado pela fragmentação e pelo frenesi da vida cotidiana. Seu testemunho nos ensina que a santidade nasce da fidelidade nas pequenas coisas, da confiança na Providência e da capacidade de transformar o trabalho cotidiano em um lugar de comunhão com Deus.
A Congregação deu vida, nos diversos continentes, a santuários, centros de espiritualidade e casas de acolhimento, onde sacerdotes, religiosos e leigos podem viver experiências espirituais transformadoras. Lugares como a Casa de Espiritualidade de Tagaytay, nas Filipinas, a de Paestum, na Itália, e o Karuna Ashram de Vagamon, na Índia, testemunham que evangelizar significa também criar espaços nos quais o ser humano possa fazer uma pausa e, à luz da Palavra de Deus, reencontrar-se a si mesmo.
O Centro de Espiritualidade Josefino-Marelliana de Apucarana, da Província Nossa Senhora do Rocio, no Brasil, tem como missão dar a conhecer São José para que, por meio de seu exemplo e de sua intercessão, homens e mulheres do nosso tempo possam redescobrir a beleza da vida espiritual e reencontrar o caminho que conduz ao Senhor.
Um dos aspectos mais significativos da obra realizada em Apucarana é a estreita colaboração entre Oblatos e leigos na organização de retiros e cursos de espiritualidade, bem como na produção e difusão de materiais impressos, digitais e televisivos. A espiritualidade não se apresenta como uma realidade reservada a poucos especialistas, mas como um caminho acessível a todo batizado.
O Centro publica, a cada três meses, a revista Estudios Josefinos, que acolhe contribuições de estudiosos de diversos países e favorece o diálogo entre a pesquisa acadêmica e a vida eclesial, demonstrando como a figura de São José continua oferecendo perspectivas fecundas para a reflexão teológica contemporânea.
A evangelização passa também pela beleza. Por isso, o Centro abriga uma extraordinária exposição iconográfica dedicada a São José, composta por aproximadamente duas mil obras provenientes de diversas culturas, juntamente com uma coleção de quase quatro mil imagens da Virgem Maria. A contemplação da arte sacra torna-se, assim, um caminho de catequese e de oração, capaz de falar inclusive àqueles que se aproximam da fé por meio da linguagem da beleza.
No entanto, a espiritualidade proposta pelo Centro não se limita à formação intelectual. Por meio do Programa Kairos, oferece um serviço concreto de acompanhamento a pessoas que atravessam situações de fragilidade. Psicólogos, pedagogos, fisioterapeutas, advogados e outros profissionais colocam gratuitamente suas competências à disposição de quem busca apoio humano, psicológico, espiritual ou jurídico. Realiza-se, assim, uma forma de evangelização integral, na qual o anúncio do Evangelho se une ao cuidado da pessoa em todas as suas dimensões.
3.2. Custódios do Evangelho da vida
A espiritualidade josefina, nascida da contemplação da missão de São José como custódio do Redentor, não se limita a propor uma devoção privada, mas torna-se fonte de atitudes concretas em relação à vida, à família e à sociedade. Entre as expressões mais significativas dessa criatividade espiritual está o compromisso em favor da vida nascente, pois é justamente no cuidado com o Menino Jesus que se vislumbra o modelo de acolhida e proteção da vida frágil.
São José é quem recebe de Deus a tarefa de custodiar o mistério da vida encarnada. Sua missão começa junto a Maria, no momento delicado da gravidez. Diante do mistério de uma vida que cresce no seio da Virgem, São José é chamado a realizar um ato de fé profunda: acolher o que não compreende plenamente e proteger Aquele que lhe foi confiado aos cuidados.
No silêncio da casa de Nazaré, José dá continuidade a essa missão de custódia. Prepara o lugar onde Jesus nascerá, acompanha Maria no momento do parto e acolhe o Filho de Deus na simplicidade e na pobreza da gruta de Belém. Sua presença discreta revela uma verdade fundamental: a vida precisa ser acolhida, acompanhada e protegida, sobretudo quando ainda não possui voz para se defender.
À luz deste mistério nasce a criatividade da espiritualidade josefina no âmbito da pastoral pró-vida. A cultura da vida requer, de fato, uma pastoral integral. Esta compreende a educação para o valor da vida humana desde a concepção até a morte natural, a formação das consciências, o auxílio às famílias, o acompanhamento de mulheres que vivenciam gestações difíceis e a proximidade espiritual com aqueles que carregam as feridas ligadas à experiência do aborto. A espiritualidade josefina ensina que a verdade deve vir sempre acompanhada da caridade e que a defesa da vida deve ser vivida com o mesmo coração paterno com que São José protegeu Jesus.
Nos Estados Unidos, os Oblatos de São José desenvolveram diversas iniciativas nessa direção. Há anos, os religiosos promovem nas paróquias programas de formação sobre o valor da vida humana e sobre a responsabilidade cristã de protegê-la desde a concepção. Por meio de encontros, catequeses e programas pastorais, ajudam as comunidades a amadurecer uma cultura da vida fundada no Evangelho e na dignidade inviolável de cada pessoa.
Esse testemunho encontra também expressão pública na participação na Marcha pela Vida em São Francisco. A participação nessas iniciativas não é apenas uma declaração de princípios, mas também um ato de solidariedade para com aqueles que não têm voz e um convite à sociedade para redescobrir a beleza do acolhimento da vida.
Nas temáticas pró-vida, é preciso destacar também outra dimensão essencial: a cura das feridas. A defesa da vida não pode esquecer a dor de tantas pessoas envolvidas na experiência do aborto. Tal experiência pode deixar feridas profundas nas dimensões física, psicológica e espiritual. Por isso, é necessário oferecer não apenas um ensinamento sobre a sacralidade da vida, mas também caminhos de misericórdia, reconciliação e cura interior.
Em Santa Cruz, na Califórnia, junto ao Santuário do Custódio do Redentor, uma imagem singular de São José expressa de modo eloquente essa missão. A estátua de bronze representa José sentado em um banco, enquanto segura entre as mãos uma criança não nascida. Seu rosto transmite, simultaneamente, ternura e força protetora. É a imagem de um pai que acolhe a vida e acompanha a dor humana com compaixão. Diante dessa representação, muitas pessoas podem reencontrar um espaço de oração e de esperança, reconhecendo que a misericórdia de Deus é maior do que qualquer ferida.
Também em Bakersfield, junto à igreja dos Oblatos que está em construção, o Jardim da Memória testemunha essa espiritualidade do cuidado e da proteção. No centro, encontram-se as estátuas da Sagrada Família, de Nossa Senhora de Guadalupe e de São José, dedicadas à memória das crianças não nascidas. Este lugar tornou-se um espaço de consolo para as famílias que vivenciaram a dor do aborto e, ao mesmo tempo, um testemunho público da sacralidade de cada vida humana. O memorial anuncia uma esperança cristã: nenhuma vida está perdida diante de Deus, e cada pessoa permanece guardada no amor eterno do Pai.
Uma sensibilidade espiritual semelhante é retomada no programa dos leigos josefinos marellianos no México, onde a figura de São José foi proposta como modelo de consolação e de cura espiritual para as pessoas marcadas pela experiência do aborto. O ponto de partida é profundamente evangélico: Aquele que protegeu a vida nascente de Jesus continua hoje, por meio de sua intercessão, cuidando das vidas feridas e ajudando as pessoas a redescobrir a misericórdia de Deus.
A criatividade pastoral inspirada em São José consiste precisamente em saber ler a vulnerabilidade humana e as feridas do tempo presente à luz do Evangelho. O carisma marelliano não fica preso ao passado, mas gera novas formas de proximidade e de misericórdia. Assim como José acolheu Maria e Jesus em uma situação marcada pela incerteza e pela vulnerabilidade, hoje somos convidados a acolher cada pessoa ferida com respeito, compaixão e esperança.
3.3. A caridade criativa a serviço dos migrantes
Entre os numerosos aspectos da figura de São José redescobertos recentemente, um ganha especial atualidade: o de padroeiro dos migrantes, refugiados e deslocados. Não se trata de uma simples atribuição devocional, mas de uma leitura profundamente evangélica de sua missão na história da salvação. Por isso, sua experiência ilumina um dos grandes desafios do nosso tempo: o drama das migrações.
O fenômeno migratório é hoje uma realidade global que envolve milhões de pessoas. Guerras, perseguições, violações dos direitos humanos, pobreza, mudanças climáticas e desigualdades econômicas obrigam populações inteiras a abandonar sua própria terra. Por trás das estatísticas, há rostos, histórias, esperanças e sofrimentos. A Igreja não pode observar essa realidade como espectadora, pois o Evangelho a chama a reconhecer no migrante o próprio rosto de Cristo.
É significativo que o Filho de Deus tenha conhecido, desde a infância, a experiência da migração. O relato evangélico da fuga para o Egito (Mt 2, 13-15) apresenta a Sagrada Família obrigada a abandonar o lar para escapar da violência de Herodes.
José recebe em sonho a ordem do anjo, levanta-se durante a noite, toma consigo Maria e o Menino e parte para uma terra estranha. Não sabe o que o espera, mas confia plenamente em Deus. Torna-se, assim, o guardião de uma família em fuga, compartilhando a insegurança, o cansaço da viagem e a incerteza do futuro. Sua presença silenciosa ensina que a primeira forma de amar consiste em proteger a vida frágil. Proteger significa acolher a pessoa em sua dignidade, defendê-la em seus momentos de vulnerabilidade, acompanhá-la no caminho de integração e ajudá-la a reconstruir sua própria existência.
Também os Oblatos de São José souberam ver na história das migrações um autêntico campo de apostolado. Se no século passado eram sobretudo os Oblatos italianos que partiam para acompanhar seus compatriotas emigrados para a Bélgica, o Brasil e os Estados Unidos, hoje os coirmãos provenientes das jovens Igrejas da Ásia são enviados à Itália para servir as comunidades de imigrantes. Realiza-se, assim, uma forma de reciprocidade missionária que manifesta o amadurecimento da Congregação e a catolicidade da Igreja: as Igrejas que antes recebiam missionários são agora, elas mesmas, agentes e protagonistas da evangelização.
Na Itália, além disso, algumas casas, temporariamente sem uma comunidade religiosa, foram destinadas ao acolhimento de migrantes, como nos casos de Villa Quaglina e Este. Não menos significativas são as experiências de acolhimento e integração vividas na comunidade da Casa Provincial de Barletta-Sterpeto, onde foi acolhida uma família proveniente de Gana.
Essa inspiração evangélica ganha forma em numerosas obras da Igreja espalhadas ao longo das grandes rotas migratórias do mundo. Um exemplo significativo é a Casa do Migrante da paróquia de Huichapan, no México. Situada junto à linha ferroviária por onde transitam milhares de migrantes rumo à fronteira com os Estados Unidos, tornou-se um autêntico lugar de misericórdia. Todos os meses, acolhe centenas de pessoas procedentes da América Central e do Sul, oferecendo-lhes uma refeição quente, uma cama, assistência médica básica, escuta e acompanhamento espiritual.
Muitos desses migrantes enfrentam uma das viagens mais perigosas do continente americano. Embarcam em trens de carga, atravessam territórios controlados pelo crime organizado e estão expostos à violência, à extorsão e à exploração. Nesse contexto, a Casa do Migrante representa muito mais do que um centro de assistência: é o sinal concreto de uma Igreja que escolhe estar ao lado dos mais vulneráveis. Juntamente com tantas outras obras promovidas por dioceses, congregações religiosas ou organizações eclesiais, ela testemunha que o Evangelho se torna crível quando se traduz em proximidade.
Aqui surge um dos aspectos mais belos do carisma cristão: a criatividade da caridade. A caridade não consiste apenas em responder às necessidades imediatas, mas na capacidade de deixar-se interpelar pelas novas formas de pobreza e de encontrar maneiras sempre novas de servir. Cada época coloca questões diferentes, e o Espírito suscita novas respostas. A fidelidade ao Evangelho não se mede pela simples repetição de obras do passado, mas pela capacidade de encarnar, hoje, a misericórdia de Cristo.
A oração das Sete Alegrias e Dores de São José, que tradicionalmente rezamos todas as quartas-feiras em nossas comunidades, expressa com simplicidade essa convicção. A Congregação invoca São José com estas palavras: «Fazei com que, entre nós, vossos filhos, cresça cada vez mais aquela caridade que nos leve a amar todos os homens como nossos irmãos».
É uma súplica que resume o sentido mais profundo da nossa missão. A criatividade da caridade nasce, de fato, da Eucaristia, onde aprendemos a reconhecer Cristo presente no Pão partido e, ao mesmo tempo, no rosto de cada pessoa que sofre.
4. Alguns desafios ligados ao «cuidado dos interesses de Jesus»
Nesta terceira parte, gostaríamos de nos deter em algumas urgências que hoje interpelam aqueles que se dedicam ao «cuidado dos interesses de Jesus». São necessidades que nos convidam a olhar com atenção para o nosso modo de viver a vocação e de servir à Igreja e às pessoas. À luz do exemplo de São José Marello, buscaremos compreender como permanecer fiéis a Cristo, enfrentando com equilíbrio e criatividade as novas situações do nosso tempo.
4.1. O desafio de manter o equilíbrio
Para completar adequadamente esta reflexão, é necessário recordar que o carisma marelliano não se esgota no «cuidar dos interesses de Jesus», entendidos principalmente como compromisso apostólico. São José Marello associa essa expressão a outra dimensão essencial: «viver em íntima união com o Divino Verbo». As duas realidades não podem ser separadas; pelo contrário, iluminam-se e sustentam-se mutuamente.
De fato, existe o risco concreto de concentrar-se tão intensamente nos interesses de Jesus a ponto de perder de vista o próprio Jesus. É possível estar muito empenhado nas obras, nas atividades pastorais, na educação e na animação das comunidades e, no entanto, perder progressivamente a relação pessoal com o Senhor. Nesse caso, o serviço corre o risco de transformar-se em ativismo, e a missão, em simples eficiência organizacional.
São José oferece uma perspectiva diferente e profundamente evangélica: antes de custodiar a missão de Jesus, custodiou a sua Pessoa; antes de ocupar-se das coisas do Reino, viveu cotidianamente ao lado daquele que é o seu centro e Senhor. A mesma dinâmica espiritual vale também para nós. Não podemos cuidar autenticamente dos interesses de Jesus se não cultivarmos uma profunda amizade com Ele.
O nosso crescimento espiritual, a qualidade da nossa vida interior e a profundidade da nossa relação com Deus não são algo acrescentado aos interesses de Jesus, mas constituem parte integrante deles. Também a santificação pessoal é, de fato, uma forma concreta de cuidar dos interesses de Cristo, pois torna a nossa vida uma transparência da sua presença no mundo.
O cuidado com os interesses de Jesus compreende sempre também o cuidado com o próprio coração e com a própria comunhão com Ele. É o próprio Cristo quem continua cuidando do mundo por meio de homens e mulheres que permanecem unidos a Ele.
São José Marello havia compreendido bem essa verdade. Sua intensa atividade pastoral e seu amor pela Igreja brotavam de uma profunda união com Deus, cultivada na oração, na meditação da Palavra e na vida sacramental e eclesial. Para ele, o autêntico apostolado não nascia da agitação, mas de um coração habitado pelo Senhor. Somente aquilo que transborda de uma verdadeira experiência de Deus, vivida nas profundezas do coração e na comunidade cristã, pode tornar-se um serviço fecundo para os outros.
Como São José, que antes de agir escutava e acolhia a vontade de Deus, também nós somos chamados a encontrar esse equilíbrio que permite à missão brotar da comunhão com o Senhor e retornar continuamente a Ele.
Nas palavras do Papa Francisco, dirigidas aos membros do nosso Instituto na audiência concedida após o Capítulo Geral de 2018, a expressão "cartuxos e apóstolos" — orantes e evangelizadores ao mesmo tempo — representa uma "feliz síntese" deixada por São José Marello (Discurso aos Oblatos de São José, 31 de agosto de 2018).
Para sermos testemunhas incisivas do Reino de Deus, é necessário amar a oração, viver "em íntima união com o Verbo divino" e deixar-nos renovar por um diálogo constante com o Senhor. É dessa comunhão que brotam a inspiração e a força necessárias para um autêntico apostolado.
4.2. O desafio de guardar a paixão por Cristo
Um dos grandes desafios da vida religiosa e apostólica é o de suscitar, guardar e renovar constantemente a paixão por Cristo ao longo de toda a existência. No início do caminho vocacional e do compromisso dos leigos, o entusiasmo nasce frequentemente de modo espontâneo e generoso; com o passar dos anos, porém, precisa ser alimentado, purificado e continuamente renovado. A paixão por Jesus, pelo Evangelho e pela missão não é uma emoção passageira, mas um fogo que deve ser guardado a cada dia por meio da oração, da ajuda da comunidade e do contato vivo com as pessoas que nos foram confiadas.
É precisamente a paixão que gera criatividade apostólica no cuidado com os interesses de Jesus, impulsionando-nos a buscar caminhos sempre novos para anunciar o Evangelho e responder às necessidades concretas das pessoas. Onde há paixão, nascem iniciativas, enfrentam-se as dificuldades com esperança e descobrem-se energias interiores insuspeitadas para o serviço. Quando, porém, a paixão enfraquece, corre-se o risco de contentar-se com o mínimo indispensável, de repetir gestos e atividades sem convicção e de deixar-se aprisionar progressivamente pela rotina e pela indiferença.
São José Marello desejava religiosos, religiosas e leigos animados por um amor ardente a Jesus e à Igreja, pois sabia que somente um coração apaixonado pode cuidar verdadeiramente dos interesses de Jesus. Por isso, é necessário voltar continuamente à fonte da própria vocação, para reacender o dom recebido e continuar servindo com alegria, generosidade e criatividade.
Juntamente com essa perspectiva, é preciso reconhecer também algumas fragilidades que podem surgir na vivência concreta de religiosos, sacerdotes e leigos engajados. Às vezes, manifestam-se formas de desmotivação espiritual e pastoral que se refletem diretamente na qualidade do serviço. Pode acontecer que a missão seja vivida de maneira "superficial", com um progressivo enfraquecimento da participação interior, chegando a manifestar sinais de cansaço existencial e de uma certa "estagnação pastoral". Nessas situações, a pessoa está presente nas atividades, mas sem um compromisso real e, por vezes, com uma atitude de distanciamento ou desinteresse.
É motivo de preocupação também a condição daquele que, mesmo estando muito empenhado no cuidado dos interesses de Jesus, parece interiormente desprovido de alegria. Sem a alegria espiritual, a vida perde o seu atrativo e a sua força de testemunho. Quando se perde a alegria evangélica, a vida corre o risco de tornar-se opaca e abre-se caminho para a tentação de buscar compensações em outro lugar ou de assumir atitudes de distanciamento, chegando a transformar-se em simples observadores ou críticos daqueles que, ao contrário, se empenham ativamente na missão.
Por isso, o tema do último Capítulo Geral inspirou-se nas palavras de São Paulo: "Recordo-te que reavives o dom da vocação recebida". Em continuidade com esse chamado, também o próximo Conselho de Congregação, que terá início na próxima semana em Monterrey, situa-se sob o signo de uma renovada consciência missionária: "Corações ardentes e pés a caminho: além do Jubileu de 2028". Trata-se de um convite a despertar a paixão por Cristo na vida dos leigos, dos sacerdotes e dos religiosos, para que a missão não perca o seu impulso interior.
A paixão nasce e se alimenta na oração pessoal e comunitária, no encontro com pessoas que vivem situações de necessidade e na vida fraterna em comunidade. É dessas fontes que brota um serviço alegre, criativo e perseverante, capaz de tornar visível a presença viva de Cristo na Igreja e no mundo.
4.3. O desafio de manter a própria identidade carismática
Um desafio fundamental para quem está comprometido com o cuidado dos interesses de Jesus é custodiar, aprofundar e renovar continuamente a própria identificação com o carisma do Instituto. A tarefa da formação, tanto de religiosos e sacerdotes quanto de leigos, consiste precisamente em fazer com que a experiência espiritual do Fundador se torne, progressivamente, parte integrante da identidade de cada membro do Instituto e, em certa medida, também daqueles leigos que compartilham a mesma espiritualidade. Não basta conhecer a história da Congregação, admirar o seu Fundador ou apreciar as suas obras apostólicas; é necessário assimilar o modo de ver, de sentir e de viver o Evangelho que o Espírito Santo concedeu à Igreja por meio do carisma fundacional.
Esse processo não pode ser dado como garantido. A identificação com o carisma exige um caminho contínuo de apropriação espiritual e de conversão pessoal. Às vezes, ela pode enfraquecer ou perder força. Pode acontecer, por exemplo, que um religioso sacerdote se identifique predominantemente com o ministério sacerdotal, vivido segundo um estilo mais diocesano, deixando em segundo plano a especificidade da vida religiosa e a riqueza do próprio carisma.
Em outros casos, pode surgir a tentação de interpretar a vida apostólica sobretudo a partir das próprias sensibilidades, preferências ou convicções pessoais, em vez de se deixar moldar pela tradição espiritual do Instituto. Existem também situações em que se promovem com entusiasmo outras espiritualidades, movimentos eclesiais ou figuras de santos particularmente apreciados no contexto pastoral, enquanto a referência ao patrimônio carismático recebido do Fundador corre o risco de ficar em segundo plano.
No caso dos leigos que compartilham o carisma marelliano, corre-se o risco de pertencer simultaneamente a diversos grupos, seguir diferentes propostas formativas e assimilar orientações espirituais muito distintas entre si. No final, mais do que uma síntese harmoniosa, pode-se criar uma espécie de mosaico fragmentado, no qual se torna difícil identificar um centro unificador. O resultado pode ser uma certa dispersão espiritual, o que dificulta o amadurecimento de um estilo de vida coerente e estável.
Cada carisma possui, de fato, uma lógica interna própria, um modo particular de ler o Evangelho, de rezar, de viver a comunhão eclesial e de interpretar a missão. Certamente, a Igreja vive da riqueza de múltiplas espiritualidades e todos os santos pertencem a todo o Povo de Deus; no entanto, cada família religiosa é chamada a custodiar e desenvolver o dom particular que lhe foi confiado para a edificação da Igreja.
Uma das urgências mais delicadas que a vida religiosa enfrenta hoje é a de preservar e manifestar a própria identidade carismática no âmbito da pastoral ordinária da Igreja. Em muitos contextos eclesiais, corre-se o risco de uma gradual homogeneização entre os institutos religiosos. As paróquias confiadas a diferentes congregações acabam, por vezes, tornando-se semelhantes em tudo: mesmos programas, mesmos métodos, mesmas atividades pastorais. A única diferença visível parece ser o brasão sobre a porta da casa paroquial ou a imagem do Fundador pendurada na parede. Quando isso acontece, o carisma corre o risco de reduzir-se a um elemento decorativo da memória histórica, em vez de ser um princípio vivo que inspira a missão.
A fidelidade ao carisma não consiste em fazer coisas diferentes das dos outros apenas pelo desejo de se distinguir, mas em viver a missão comum da Igreja por meio de uma sensibilidade espiritual e pastoral própria. Cada carisma é um dom do Espírito para a edificação do Corpo de Cristo e oferece uma perspectiva original a partir da qual se podem ler as necessidades do Povo de Deus e responder a elas. Por isso, uma paróquia confiada aos Oblatos de São José deveria ser capaz de manifestar concretamente alguns traços característicos de sua própria espiritualidade.
Para os Oblatos de São José, isso significa voltar constantemente à escola de São José Marello e à sua intuição fundamental: aprender a cuidar dos interesses de Jesus, a exemplo de São José. Significa deixar-se formar por uma espiritualidade que une contemplação e ação, abandono à Providência e entrega apostólica, humildade e zelo pelo Reino de Deus.
Quando essa convicção se torna critério da vida cotidiana, o carisma não permanece como uma simples referência institucional ou histórica, mas transforma-se em uma força espiritual capaz de orientar as decisões pessoais, animar a vida fraterna, inspirar o apostolado e fortalecer o sentido de pertença à Congregação.
De fato, somente uma profunda identificação com o próprio carisma permite transmiti-lo às novas gerações, inculturá-lo nos diferentes contextos e mantê-lo vivo, criativo e fecundo nas condições em constante mudança da Igreja e do mundo.
4.4. O desafio de transmitir o carisma às novas gerações
Hoje, a responsabilidade da vida consagrada é transmitir o carisma às novas gerações, com sensibilidade e linguagens diferentes daquelas das origens. Às vezes, existe a tentação de considerar o carisma como um tesouro a ser conservado intacto, quase como se fosse uma realidade que se deve proteger mais do que viver. Na realidade, não é uma relíquia do passado, mas uma realidade viva, dom do Espírito Santo à Igreja para que continue gerando vida ao longo da história. Como uma semente, o carisma conserva sua própria identidade não quando permanece intacto, mas quando aceita ser confiado à terra, deixando algumas formas do passado para poder dar fruto em condições novas.
Nessa perspectiva, a fidelidade não se confunde com a simples repetição, mas com a capacidade de deixar-se regenerar continuamente pelo Espírito. O carisma marelliano, como todo dom eclesial autêntico, não está vinculado a uma época ou a uma linguagem específica, mas a uma inspiração que pode e deve encarnar-se nas diversas situações históricas. Portanto, a questão decisiva não é como reapresentar o passado, mas como tornar comunicável, hoje, a experiência espiritual originária da qual nasceu a Congregação.
Uma via privilegiada para essa transmissão é a narrativa. O carisma, de fato, não se transmite apenas por meio de conceitos ou normas, mas também mediante uma memória viva e narrada. Contar a vida do Fundador, o estilo dos primeiros coirmãos, as experiências das comunidades das origens e os testemunhos daqueles que encarnaram fielmente o carisma significa torná-lo novamente presente e atuante.
A tradição da leitura do necrológio dos coirmãos falecidos é um exemplo significativo disso. Não se trata apenas de recordar biografias, mas de reconhecer, em suas vidas, formas concretas de fidelidade e de configuração com o carisma. Quando se afirma de alguém que "foi um verdadeiro Oblato", expressa-se o reconhecimento de uma vida profundamente moldada pelo dom recebido e vivida segundo o espírito da Congregação.
Do ponto de vista teológico, essa dimensão narrativa é profundamente coerente com a lógica da Revelação. A fé cristã é transmitida por meio de uma história narrada: o Evangelho não é simplesmente um sistema de ideias, mas o relato da ação salvífica de Deus na história. Por isso, também o carisma se comunica sobretudo por meio da memória vivida e contada. Uma Congregação que deixa de contar a sua própria história corre o risco, lentamente, de perder a sua própria identidade espiritual.
Nessa mesma linha, compreende-se a sabedoria de São Bento, que recomendava a leitura periódica da Regra na comunidade, a fim de que o estilo de vida monástico permanecesse sempre vivo e atual. De maneira análoga, a leitura das Constituições pode tornar-se um verdadeiro instrumento de formação e de renovação espiritual, sobretudo quando se valorizam as partes que dizem respeito ao estilo de vida e à espiritualidade, e não apenas os aspectos jurídicos.
No entanto, a transmissão do carisma realiza-se também por meio da vida concreta daqueles que o receberam. Cada religioso, cada sacerdote e cada leigo que se reconhece no carisma torna-se, para o bem ou para o mal, uma forma de comunicá-lo. A vida cotidiana é sempre um testemunho: pode ser atraente e geradora de vida, ou opaca e um antitestemunho. Uma vida coerente, habitada pela alegria e pela caridade, torna-se ela mesma um anúncio; por outro lado, uma vida apagada ou carente de entusiasmo corre o risco de obscurecer aquilo que deveria manifestar.
Por fim, a transmissão do carisma exige a coragem de enfrentar as mudanças culturais. Muitas vezes, as novas gerações não possuem uma linguagem religiosa imediata, e as categorias espirituais tradicionais parecem, por vezes, distantes de sua experiência. Isso não é um obstáculo que devamos lamentar, mas sim um chamado a discernir novas linguagens capazes de comunicar a experiência originária do Espírito.
Portanto, transmitir o carisma significa entrar em um dinamismo vivo de memória, relato, testemunho e renovação, para que aquilo que nasceu no coração de São José Marello continue gerando vida na Igreja e no mundo de todos os tempos.
Conclusão
Ao chegar ao final desta reflexão sobre o tema "Cuidar dos interesses de Jesus diante dos desafios de hoje: fidelidade e criatividade", podemos reconhecer que essa expressão não indica simplesmente uma tarefa apostólica ou um programa pastoral, mas define uma verdadeira forma de vida no seguimento de Cristo.
Como família marelliana, somos chamados a nos fazer continuamente a pergunta fundamental: quais são, hoje, os interesses de Jesus que esperam ser guardados e servidos? Eles se manifestam onde a vida pede acolhida, onde a fé precisa ser anunciada, onde os jovens buscam orientação, onde as famílias precisam de ajuda, onde as pessoas feridas esperam misericórdia e esperança.
São José Marello nos recorda que cada palavra, cada passo, cada desejo pode se tornar expressão do cuidado com os interesses de Jesus. Nada é pequeno demais quando se vive por Cristo. A missão nasce dos gestos cotidianos de fidelidade, da disponibilidade discreta, da capacidade de reconhecer e amar o que Deus ama.
Por isso, fidelidade e criatividade não são atitudes opostas. A verdadeira fidelidade ao carisma gera criatividade, pois nos impulsiona a buscar, nas novas situações, os caminhos para continuar cuidando dos interesses de Jesus. E a verdadeira criatividade permanece fiel quando nasce da escuta do Espírito e da comunhão com Cristo.
Entreguemos, pois, o futuro da nossa missão a São José, pedindo-lhe que nos acompanhe no caminho e nos ensine, como ele, a viver em íntima união com Jesus e a cuidar de seus interesses com um coração fiel, ardente e criativo.
São José Marello, ensina-nos a cuidar com alegria e paixão dos interesses de Jesus!